O que os jovens estão consumindo de música nos dias de hoje

 

 

A música tem o poder de traduzir o espírito do nosso tempo. Foi assim com os hippies no final dos anos 60, com os punks nos 80, o grunge nos 90 e o pop dos anos 2000, etc.

 

Ela sempre teve uma força muito grande principalmente entre os jovens, que a utilizam como uma ferramenta de expressão que representa suas angústias, ideias, visões de mundo. A música ajuda o jovem a expressar a sua personalidade.

 

E o comportamento do jovem, por sua vez, nos dá indicativos de tendências e novas formas de perceber o mundo e a sociedade. Ou seja, melhor ficar de olho neles ;)

 

Foi exatamente o que fizemos junto com a Loja Gang, um dos nosso clientes aqui no Bananas onde eu sou curadora musical. Além de criarmos a trilha sonora que toca nas lojas da marca - voltada para a moda jovem - desenvolvemos junto com eles um aplicativo de música próprio, oferecido pela Gang para os seus consumidores.

 

Com o objetivo de propor novas playlists pro Gang App, nossa head de curadoria musical, Eme Jensen, fez uma pesquisa aprofundada sobre o que os jovens ouvem VIVEM hoje em dia. Nós fazemos isso sempre para os nossos clientes, mas pesquisamos ainda mais fundo ao repensar as plays do App.

 

Apesar da infinidade de opções que o streaming oferece, ela percebeu que ainda é possível categorizar os gostos musicais dos jovens em um punhado.

 

Você verá que as tribos ainda são reais, só recebem nomes mais millenials agora. 

 

• • • 

 

De onde vieram esses insights?

 

A Loja Gang é um dos clientes mais antigos que eu cuido no Bananas. 

 

É parte do trabalho do curador musical estar atento às novidades e mudanças nos charts e na preferência musical das pessoas. Por ser uma marca voltada ao público jovem, trabalhar com a Gang faz essa atenção e observação ser multiplicada por MIL: a cada semana surge e desaparece um novo estilo musical ou um ídolo. É um trabalho intenso "tentar" se manter sempre por dentro do que está rolando. 

 

Para minha sorte, aqui no Bananas nossa curadoria musical acaba sendo co-criada com quem vive esse lifestyle de perto: os gerentes e os vendedores das lojas. 

 

Quando começamos a trabalhar com curadoria musical e criação de playlists, sempre soubemos  da importância de entregar dados consolidados sobre a performance da trilha das lojas. Por isso, uma das funcionalidades mais importantes do nosso player de reprodução musical instalado nas lojas é a ferramenta de feedback para que gerentes e vendedores possam interagir com a nossa curadoria. constante vindo dos vendedores. 

 

Os vendedores são, em sua maioria, o perfil do público que consome a marca.

 

Não por acaso os colaboradores das Lojas Gang acabam sendo jovens muito parecidos com os clientes da loja e consumidores do Gang App. Esses feedbacks, somados a pesquisas internas, acabaram me dando um panorama sobre o que os jovens brasileiros mais andam consumindo nos dias de hoje. 

 

Meu objetivo com esse texto é dividir algumas das macro tendências e padrões que observei nos estilos de música mais consumidos pelos jovens e como esses padrões de comportamento podem ser relevantes para tomada de decisão em outras áreas que não necessariamente a música.

 

Afinal, não são só listas de músicas. São lifestyles. 

 

• • • 

 

1) O conceito de romance está em cheque? 

 

Para o dia dos namorados, criei uma playlist exclusiva para as lojas - e que aos poucos acabou se transformando na playlist Romântica da Gang. 

Porém, observei nos reports mensais que, mesmo em maior número,as músicas pop fofinhas não faziam tanto sucesso na play quanto as mais RnB safadinhas. Nas atualizações, comecei a levar mais para esse lado RnB e a playlist já migrou daquele conceito inicial. 

 

Um dos estilos mais ouvidos pelos jovens brasileiros atualmente é RnB / Rap Acustico, e eles se encaixam exatamente nesse mood pegação. Essa playlist se joga nesses estilos e apresenta as melhores tracks pra se pegar ou pensar no moreno/morena.

 

2) Rap Acústico

 

Se você perguntar para uma adolescente de 14 anos o que ela mais gosta de ouvir, grande chance da respostas ser: 1Kilo, Lourena, Cynthia Luz ou “Poesia Acústica”. E,de fato, a playlist com esse estilo é uma das mais ouvidas do Gang App.Mas que diabos é rap acústico, afinal?

 

O rap nasceu da combinação de alguns elementos, entre eles o DJ - cuja função é mixar músicas ao vivo dando continuidade na batida para que a dança não pare. Em cima disso, o mestre de cerimônias - ou simplesmente "MC" - tem como missão passar a mensagem de forma falada pro público.

 

Originalmente, os beats do rap são samples dos mais variados estilos de música. Uma pegada "orgânica" como a de um violão, por exemplo. Por isso, o tal "rap acústico", onde a base consiste em acordes tocados em um violão, acaba sendo algo notável e consideravelmente novo nesse gênero.

 

Há quem diga que a "culpa" é do Marcelo D2 e que tudo começou no disco acústico, lançado lá em 2004. Enfim, nunca saberemos.O fato é queo Brasil tem rappers e cantores muito prolíficos nesse estilo mais “unplugged”, com lançamentos diários observados de perto por fãs ávidos por novidades. 

 

3) A força do Trap

 

O trap é um estilo de Rap que dominou os charts globalmente e está no auge no Brasil. Atualmente é um dos gêneros mais populares entre os adolescentes, especialmente entre os meninos.

 

No trap, o lifestyle é tão importante quanto o som.

 

Uma coincidência interessante que encontrei na pesquisa é o wordplay com Gang: vários rappers e trapstars chamam a sua “turma” de gang e algumas dessas “gangs” ficaram tão famosas que viraram marcas também, como a Taylor Gang do Wiz Khalifa.

 

4) O Emo virou Rap

 

Em 2006, o emo estava em alta. Muita gente se identificava como emo (eu, inclusiva ;)

 

Atualmente, o emo ressurgiu, só que dessa vez no rap.

 

Nada mais adolescente do que a melancolia. Criamos uma playlist com esse estilo, e assim, mostramos que a marca está ali também pra esses momentos que a gente não está se sentindo tão bem. E no final tudo passa, tudo fica bem.

 

5) O "indie"mudou

 

O indie não é o mesmo que eu curtia lá em 2001 com The Strokes, The Hives, The etc. 

 

Há um renascimento / fortalecimento nesse exato momento do indie através do YouTube e Spotify. O mais legal, é que alguns dos principais artistas desse “novo indie” tem a mesma idade dos jovens ouvintes que estudamos nesse report - entre 15 e 20 anos. 

 

6) O Pop Punk não morreu

 

Além do Pop, o Rock também perdeu muito espaço pro hip hop na mídia mainstream. Apesar do sucesso astronômico de alguns grupos que nasceram no pop punk como Panic! At the Disco, Twenty One Pilots e Fall Out Boy, a visibilidade do estilo diminuiu muito.

Mas isso não significa que os jovens não escutem mais música pop punk e hardcore. Há muito revival e nostalgia, mas também existem bandas novas em ascensão. 

 

7) Aesthetics

 

Um estilo de som quase sempre instrumental e bastante funcional, utilizado para estudar, relaxar e até pra dormir. Tem muita ligação com a internet, com o vaporwave e com o hip hop. Tanto que ficou conhecido também como Lo-Fi Hip-Hop.

 

As playlists de Lo-Fi Hip-Hop são um fenômeno no youtube, com canais transmitindo listas em vídeos ao vivo praticamente 24 horas por dia, todos os dias da semana. 

 

8) O fenômeno K Pop

 

Deixei por último o que seja talvez o maior fenômeno da música nos últimos tempos.

O K Pop começou como um movimento sul coreano, rapidamente se tornou uma mania global e hoje está entre os 10 gêneros com maior número de streamings em todo o mundo. 

 

É sem dúvida um som que celebra as diferenças, mesclando jazz, rap, música clássica, reggae, folk e EDM, com referências visuais e culturais vindas de praticamente todos os continentes. 

 

Mas além de um estilo musical, o K Pop tem as características de "febre".

 

Representado hoje mais fortemente pelo grupo BTS, aqui no Brasil o som sul coreano tem fãs que se reúnem em grupos nas redes sociais de até 70 mil membros. Os perfis que divulgam notícias sobre os principais artistas passam dos milhares de seguidores. 

Mas segundo os fãs mais antigos, o KPop não é novidade: ele chama atenção desde o início dos anos 2010 e estamos vivendo na verdade a terceira onda desse fenômeno.

Claro que por estar tão popular, há também diversos haters, que simplesmente adjetivam o K-pop e seu público como infantil ou problemático. Porém, gostando ou não, a real é que não dá pra ignorar a força desse pop sul coreano que vem se conectando com os jovens a bastante tempo e de maneira cada vez mais forte por aqui.

 

• • • 

 

E aí? Se sentiu velho? Não se preocupa que não é só você: tá realmente difícil acompanhar todos os movimentos na música consumida pelos jovens hoje em dia. Por isso mesmo resolvemos compartilhar esse report :) 

 

Espero que ele tenha te ajudado a perceber quais sãos os movimentos culturais e musicais mais relevantes, as mudanças mais importantes e o que continua igualzinho à época em que você era adolescente. #saudades

 

Nos avisa aí nos comentários se curtiu e se gostaria que a gente fizesse o mesmo com o report de outros clientes. Adoramos estudar esse assunto então pra gente será um prazer.

 

Até a próxima. Tchau!

 

 

texto por Emely Jensen - head de curadoria musical do Bananas Music, gamer & mememaker