O que é curadoria musical?

 

 

Já era o tempo em que o rádio ditava nossa trilha sonora sem darmos pitaco. Agora, o streaming e as playlists pessoais estão aí para isso. O que levanta o questionamento: há espaço para uma rádio hoje em dia? A resposta é sim, e um dos principais motivos é a curadoria musical.

O papel dela é ser um guia pelo vasto mundo da música. A escolha da banda certa pode fazer uma grande diferença no seu dia e esse é um dos grandes lemas do Bananas Music Branding, empresa especializada em curadoria e conteúdo musical para marcas.

 

Para sabermos mais sobre esse tipo de curadoria musical, batemos um papo com Juliana Baldi, DJ, radialista, fundadora do Bananas Music Branding e especialista em escolher a música certa para cada momento.

 

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Como é possível o curador fazer uma melhor seleção musical para uma pessoa do que ela mesma o faria?

 

Hoje em dia, todos nós somos curadores e servimos de referências para alguém. O que difere é que quem trabalha com curadoria, não apenas escolhe, mas interpreta e consegue criar uma história para uma seleção musical, por exemplo.

 

Acredito que quem procura por uma curadoria musical está disposto a receber esse conteúdo. E por mais que existam ferramentas para as próprias pessoas procurarem e fazerem a própria seleção, a maioria da população procura por algo pronto.

 

Para a seleção musical de marcas já é diferente, é necessário analisar outros pontos e com certeza o curador especializado pode vir a fazer um trabalho melhor, pois usa mecanismos para que o gosto pessoal não interfira na identidade da marca.

 

Você acredita que, de alguma forma, o papel da curadoria musical é o que está mantendo as rádios essencialmente de música vivas?

 

As rádios sempre tiveram o papel de curadoras e ainda vão continuar tendo. É o conteúdo que está pronto para consumir e dá aquela sensação de pertencer a um grande público. Infelizmente a maioria dos programadores de rádio lançam poucas novidades, mantendo a programação recheada de clássicos e midbacks.

 
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Juli Baldi na época da Rádio Ipanema FM

Com o Bananas Music, você cria uma identidade musical para marcas. O que você leva em consideração ao escolher a música perfeita para uma determinada empresa?

 

A última coisa que criamos é a playlist.

 

Antes disso, tem todo um processo de Concept que envolve reuniões com o cliente para entendermos quais são os pilares da marca, onde eles querem chegar, quais momentos do dia a playlist vai se apropriar e o que a música vai comunicar. Depois, também aplicamos uma pesquisa com o público, com perguntas e associações que nos auxiliam a chegar na estética sonora ideal para ser trabalhada.

 

Depende muito o que levamos em consideração para cada cliente, pois cada um está inserido em universo e quer comunicar coisas diferentes. Analisamos principalmente o cenário onde o target está inserido, os hábitos de consumo e os artistas que mais tem aderência com esse universo.

 

Como uma música pode influenciar na hora de você comprar uma roupa, por exemplo, que acaba tornando o papel da curadoria musical importante?

 

A música torna o ambiente mais agradável e completa o universo em que a roupa está inserida. A trilha sonora faz parte do conceito da marca, e as pessoas compram e querem se relacionar com conceitos.

 

Se a música estiver de acordo com o que o ambiente proporciona e com o momento do dia, pode influenciar em quanto tempo a pessoa fica dentro da loja e construir uma melhor relação emotiva com o cliente. Pois a música tem o poder de emocionar e estimular sentimentos.

 

A música hoje em dia está sendo consumida mais do que nunca, mas ao mesmo tempo ela é pouco valorizada. No Bananas Music vocês disseminam a ideia de que a música importa. Por que ações como essa são necessárias?

 

Defendemos que a música importa em todos os momentos e em todos os lugares. Acreditamos que valorizar a música de artistas e bandas é essencial. Afinal de contas é o nosso instrumento de trabalho e prezamos muito por ele. Se eles são valorizados, o nosso trabalho vai ser também.

 

Você acha que já rola uma valorização maior?

 

As pessoas estão escutando mais música, e também estão valorizando a experiência. O vinil é uma prova disso, as pessoas estão gastando dinheiro comprando discos para ter uma experiência legítima e isso é maravilhoso.

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Como radialista e DJ, você também acaba fazendo curadoria musical. Mas como equilibrar o gosto pessoal com o que os outros querem ouvir?

 

Bom senso. Como DJ e radialista o meu gosto pessoal fala mais alto, pois as pessoas querem a minha curadoria. Mas encaro a música como uma ferramenta para conhecer melhor o comportamento das pessoas. Cada cluster escuta e se relaciona com a música de forma diferente. Procuro estudar, entender e interpretar os estilos e artistas que diferentes grupos escutam e inserir o meu toque pessoal nessa seleção.

 

Uma das coisas principais da curadoria musical é surpreender as pessoas com músicas e bandas novas. Você acredita que radialistas e DJs são meios de popularizar artistas e músicas?

 

Radialistas e DJS são referências. Eles tem a credencial para mostrar garimpos e coisas novas e o público acaba absorvendo isso e consequentemente conseguem popularizar o que acreditam. Mas é necessário ser original para conseguir transformar uma música ou banda em hit, analisando o cenário onde essa música será inserida.

 

Como você diferencia o trabalho de curadoria que você faz e a curadoria das gravadoras?

 

A gravadora lança os artistas que acreditam que vão agradar um bom número de pessoas que irão comprar aquilo e para por aí. O curador musical, além de selecionar artistas, se preocupa muito com o momento em que aquela seleção vai tocar e que tipo de sentimento quer transparecer com aquelas músicas.

 

A curadoria musical é também um processo de confiança entre você e o cliente/ouvinte, certo? E vocês contam também com o retorno deles para que seja uma boa curadoria?

 

Exatamente, se o cliente ou a pessoa física não aceita o nosso trabalho ou as sugestões, fica difícil construir algo original. No Player Bananas temos ferramentas de feedback automático onde o cliente pode escolher se curtiu ou não a música e comentar o porquê. Nas plataformas de streaming como Spotify, ficamos atentos às playlists que têm mais plays e seguidores para ver o que o público tem mais receptividade.

 

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*post publicado originalmente na Noize.